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O que resta de grandezas para nós são os desconheceres


A metáfora da navegação tem sido mobilizada com insistência em relação à Internet, navegar no ciberespaço e surfar na infomaré eletrônica indiciam modos de falar de o sujeito falar de si e do espaço virtual, nos quais subjazem efeitos de sentido já ditos em outros contextos sócio-históricos, de aventura, sede de descobrimento, desejo do além-fronteiras. Não mais as Grandes Navegações (nem as pequenas) em embarcações empíricas, muitas das quais se despediam da tranqüilidade costeira com pouca segurança e equipamentos precários; não mais a orla como ponto físico de despedidas e/ou retardamento de reencontros; não mais as vozes de choro ou os vivas de alegria dos que içaram vendo o horizonte, a partir do seu ponto de fixação, engolir as caravelas que, de próximas e plausíveis, aos poucos se tornaram nuançadas pelo esfumaçamento de seus contornos até sumirem. Não mais o roteiro definido da cartografia estudada antecipando seguranças em relação ao trânsito, nem o reconhecimento prévio dos caminhos, nem a investigação tida como objetiva dos perigos do clima e da força titânica das marés, nem o alerta sobre os imprevisíveis desafios a serem vencidos no corpo-a-corpo com os mastros e os tecidos do vento e das ondas. Não mais a voz do Velho do Restelo a lamuriar versos de dor e maledicência em relação “ao maldito o primeiro que no mundo/ nas ondas velas pôs em seco lenho”, como escreveu Camões.

Agora a navegação é de outra ordem, desliga-se do sentido de um caminho a ser percorrido com porto de chegada previamente desejado ou antecipado, como terra possível de ser alcançada. Não há rota aparentemente segura ou linearmente traçada, pois estar submerso na topologia associativa do hipertexto implica outro modo de organizar o(s) arquivo(s) e de estabelecer a continuidade e/ou a fragmentação dos dizeres. Trajeto este que não (per)segue uma ordenação lógica de etapas encadeadas à maneira do impresso, ainda que muitos impressos com-portem estruturas móveis, maleáveis e desdobráveis, tais como romances experimentais à moda de Queneau, Borges, Cortazar dentre outros. No ciber, a navegação encerra uma maneira de estar permanentemente em suspenso na errância e na vagação de um espaço que rompe a fisicalidade e propõe, em lugar dela, a virtualidade, a interatividade, a multilinearidade, o espalhamento de palavras em espiral, isto é, o que pode vir-a-ser nos nós e links da teia eletrônica e também nos vazamentos deles, aquilo que está prestes a tornar-se letra (e a apagar-se) no próximo clique, a página a ser aberta (e/ou fechada) no momento do agora e o arquivo a ser baixado (ou não) no gerúndio da navegação. Estudar os movimentos do sujeito-navegador e dos sentidos produzidos por ele na rede mundial de computadores inscreve um campo fértil que ora desejamos fazer girar e falar aqui, desenvolvendo as seguintes atividades permanentes em nosso E-L@DIS - Laboratório Discursivo, sujeito e sentidos em movimento:

  • Site do Laboratório Discursivo desenhado coletivamente e orientado pela perspectiva discursiva que considera a opacidade, a incompletude e os movimentos como constitutivos da linguagem;
  • Colcha de retalhos e pespontos em rede, composição também coletiva de um banco de dados digital sobre a questão agrária e a terra, temas entendidos aqui como matéria prima para fazer falar a polissemia;
  • Colóquios em Discurso, encontros mensais com um aluno-pesquisador convidado a apresentar seu projeto de pesquisa e os seus dados de análise e estudo dirigido de um texto teórico sobre Análise do Discurso;
  • Encontros Discursivos: encontros semestrais com pesquisadores de outras instituições, que trabalhem com as questões do campo discursivo, para discussão de temas relacionados às questões da subjetividade, rede eletrônica, arquivo e cultura digital;
  • Jornadas de Análise do Discurso;
  • Discurso na tela: exibição de um filme escolhido pelos integrantes do E-L@DIS com a discussão de um convidado externo e a análise discursiva elaborada por um membro do nosso grupo de estudos.