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A representação mais exacta, mais precisa, da alma humana é o labirinto


SCHLOMO SIGISMUND FREUD (1956-1939)

Dito Sigmund Freud

Um jovem, escuta de mulheres, circuito médico a ser desconstruído pela força de linguagem. Lapsos, atos falhos, vascilos, esquecimentos. Algo sempre a não caber, a colocar o sujeito em falta e em xeque. Refino de olhar, de escrever, de perceber o que estava para além. Um marco no campo científico, um teórico sempre a ser revisitado.

Quem foi Sigmund Freud?

Esta é uma questão, à primeira vista, impossível de se responder, apesar de termos acesso a uma extensa produção que nos deixa rastros e vestígios históricos que compõem a memória discursiva do e sobre este autor. Freud escreveu uma Obra pioneira, vasta e de muito valor para a humanidade, com a qual contribuiu para o avanço e enriquecimento de diversos campos do conhecimento humano, principalmente no que concerne a psique humana e a linguagem. A teoria e o método criados por ele têm como eixo central o inconsciente e suas representações.

Freud nasceu em Freiberg, na Morávia (antiga República Tcheca), em 06 de maio de 1856, filho de Amalia e Jacob Freud. Foi o filho mais velho do terceiro casamento de seu pai, que trabalhava como comerciante de lã e têxteis. Nascido e criado em família de judeus, Freud “recebeu uma educação judaica não tradicionalista e aberta à filosofia do Iluminismo” (ROUNINESCO & PLON, 1998, p.273). Uma das personagens de relevo em sua juventude, foi a governanta tcheca e católica, Monika Zajic, apelidada Nannie, quem lhe apresentou um outro mundo, diferente daquele do judaísmo e da judeidade (op.cit.). Freud nunca negou sua judeidade, mas sempre transitou por ela com muita crítica.

Por questões financeiras, a família se mudou para Leipzig em 1859, e um ano depois, se estabeleceram em Viena, num bairro judeu chamado Leopoldstrase. Foi lá que Freud começou a se corresponder com Eduard Silberstein à respeito de Bretano, apaixonou-se por Gisela Fluss e fez amizade com Heinrich Braun (1854-1927), “que despertaria seu interesse pela política e depois se orientaria para o socialismo” (op.cit., p.273).


(Vienna,1878,CopyprintFreud Museum, London (7). (left to right standing) Pauline, Anna, unidentified girl, Sigmund, possibly Rosa's fiancé, Rosa, Marie, and Simon Nathanson [Amalia's cousin]; (sitting) Adolfine, Amalia, unidentified boy, Alexander, and Jacob)

Em 1873 Freud começou seus estudos em medicina. No instituto de fisiologia, onde ficou por seis anos, fez amizade com Josef Breuer (1842-1925), médico austríaco muito influente para Freud entre os anos 1882 e 1895, ajudando-o não só intelectualmente mas também financeiramente. Breuer inventou o método catártico para o tratamento da histeria e redigiu junto a Freud “a obra inaugural da história da psicanálise, Estudos sobre a Histeria, e foi médico de Bertha Pappenheim que, sob o nome de Ana O., se tornaria o caso princeps da origens do freudismo” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p.93), em 1895. Abaixo, foto de Breuer, Ana O. e Freud.

Em 1885, nomeado Privatdozent de neurologia, Freud obteve bolsa de estudos para Paris” (op.cit., p.274), onde quis encontrar-se com o já famoso Jean Martin Charcot, estudioso sobre a histeira e cujo método de tratamento criado na época foi revolucionário.


(Pintura de Charcot dando aula sobre hipnose)

Regressou à Viena, para trabalhar como médico particular e como neurologista na Clínica Steindlgasse. Casou-se com Martha Bernays em setembro de 1886, com quem teve seis filhos: Mathilde, Martin, Oliver, Ernst, Sophie e Anna.

Um belo retrato de Freud é discursivisado por Stefan Zweig (apud ROUDINESCO & PLON, 1998, p.273) em 1942, e que transcrevemos a seguir, ainda que desconfiados, como analistas, de termos ilusórios como a “clareza”:

“Não se podia imaginar um indivíduo de espírito mais intrépido. Freud ousava a cada instante expressar o que pensava, mesmo quando sabia que inquietava e perturbava com suas declarações claras e inexoráveis; nunca procurava tornar sua posição menos difícil através da menor concessão, mesmo de pura forma. Estou convencido de que Freud poderia ter exposto, sem encontrar resistência por parte da universidade, quatro quintos de suas teorias, se estivesse disposto a vesti-las prudentemente, a dizer “erótico” em vez de “sexualidade”, Eros em vez de “libido” e a não ir sempre até o fundo das coisas, mas limitar-se a sugeri-las. Mas, desde que se tratasse de seu ensino e da verdade, ficava intransigente; quanto mais firme era a resistência, tanto mais ele se afirmava em sua resolução. Quando procuro um símbolo da coragem moral – o único heroísmo no mundo que não exige vítimas – vejo sempre diante de mim o belo rosto de Freud, com sua clareza viril, com seus olhos sombrios de olhar reto e viril.”.

Por um viés da escrita que se fez escritura

Médico vienense, fundador da psicanálise, escreveu uma obra composta de 24 livros e 123 artigos, traduzida em cerca de 30 línguas. De acordo com alguns historiadores, Freud escreveu, ainda, cerca de quinze a vinte mil cartas, dentre as quais dez mil se encontram depositadas na Biblioteca do Congresso em Washington. As demais foram perdidas ou destruídas (ROUDINESCO & PLON, 1998).

Entre seus principais correspondentes, encontramos Lou Andreas-Salomé, Eduard Silberstein, Ernest Jones, Jung, Ferenczi, Romain Rolland, Arnold Zweig, Stefan Zweig, Edorado Weiss, Oskar Pfister (expurgadas), Karl Abraham (expurgadas), e Wilhelm Fliess (op.cit), com quem Freud manteve uma atividade intensa de escrita, reveladas ao longo do tempo e compiladas na obra ilustrada abaixo:

Apesar de a obra freudiana ter duas edições em alemão, uma feita durante a vida de Sigmund (Gesammelte Werke) e outra depois de sua morte (Gesammelte Werke), foi a versão inglesa realizada por James Strachey “Standart Edition of the complete Psychological Works of Sigmund Freud” a que mais se popularizou e disseminou a teoria do psicanalista. É uma tradução de referência importante em todo o mundo, mas que requer, como em toda obra, a discussão em torno de alguns conceitos traduzidos de forma equivocada muitas vezes, como é o caso das palavras Instinckt (instinto), ao invés de Trieb (pulsão), ou ainda Ego, ao invés de Ich (Eu). São conceitos trabalhados e modificados ao longo da elaboração de Freud e que mudam todo o sentido interpretativo conforme as empregamos em uma outra tradução, o que também tem efeitos na clínica, diferenciando assim, a forma de lidar de cada psicanalista de acordo com sua leitura e sua filiação teórica.

Freud teve cinco casos clínicos publicados, a partir dos quais muito foi produzido em termos de reflexão sobre a clínica por seus sucessores, são eles: o caso Dora (Ida Bauer); o Pequeno Hans (Hebert Graf); o Homem dos Ratos (Ernst Lanzer), Schreber (Daniel Paul Schreber) e o Homem dos Lobos (Serguei Constantinovitch Pankejeff) (op.cit), cuja foto, segue abaixo:

A construção da clínica freudiana a fim de aliviar os sofrimentos psíquicos de seus pacientes passou desde os métodos terapêuticos aceitos no final do século XIX, tais como massagens, hidroterapia e eletroterapia (op.cit.,p. 275) bem brevemente, caminhando pela hipnose até chegar à associação livre, sustentada até o fim de sua obra. Uma importante elaboração escrita nos permite acessar a construção da associação livre com um apoio na neurobiologia da época, em que Freud publica uma monografia intitulada “Contribuição à concepção das afasias”, propondo uma abordagem funcional dos distúrbios da linguagem, que faria toda a diferença da abordagem neurofisiológica vigente na época. Neste texto, encontramos uma primeira proposta de diferenciação entre objeto e representação, aparelho psíquico, associacionismo. Texto que, ainda que muito voltado aos termos médicos, já nos permite uma interlocução com estudos saussurianos e lacanianos sobre os signos, significantes, significados, sobre a linguagem. Aliás, é o típico movimento de Freud ao longo de sua construção: partir de algo mais concreto, biológico, orgânico, rumo à abstração, ao simbólico, como podemos observar também na sua elaboração e posterior abandono da teoria da sedução, segundo a qual “toda neurose se explicaria por um trauma real” (op.cit.p.275), renunciada em 1897 na célebre frase de Freud à Fliess : “Não acredito mais na minha Neurotica”. A partir de então, ele vai elaborar uma teoria da fantasia, concebendo a teoria dos sonhos e do inconsciente, “centrada no recalcamento e no Complexo de Édipo.”(op.cit., p.275).


(Édipo e a esfinge)

O termo “Inconsciente” (Das Unbewusste) já era utilizado antes de Freud, “[...] até a descoberta freudiana, o inconsciente permaneceu conotado pelo sentido negativo [...] tanto em suas diversas acepções filosóficas quanto sob a batuta da psicologia nascente na segunda metade do século XIX. [...] ao propor a hipótese de um lugar psíquico especificamente referido a uma espécie de consciência inconsciente, Freud não inventa um conceito propriamente falando. [...] deu ao termo já existente um sentido novo[...].” (KAUFMANN,1998, p. 264).

Da nova teoria do inconsciente, em 1899, nasceria A Interpretação dos Sonhos, obra fundamental de Sigmund Freud. Seu intercâmbio intelectual se deu nas mais diversas esperas do conhecimentos humano, perpassando pela literatura, teatro, antropologia, sociologia, física, religião, etc e trabalhou com afinco sobre os mais heterogêneos temas. Com Albert Einstein, Freud defendeu o desenvolvimento da cultura como melhor forma de lutarmos contra guerra, em que podemos ler na bela correspondência “Por que a Guerra?” entre os dois gênios.

Ainda assim, Freud foi vítima da irrupção da bestialidade nazista, que o fez se exilar no final da vida em Londres, em março de 1938, por intermédio da proteção do diplomata americano William Bullitt e de um resgate pago por Marie Bonaparte, que garantiram sua partida de Viena com sua família e o resgate de parte da obra freudiana, fadada à destruição pelo reich.

“No momento de partir, foi obrigado a assinar uma declaração na qual afirmava que nem ele nem seus próximos haviam sido importunados pelos funcionários do Partido Nacional- Socialista. Em Londres, instalou-se em uma bela casa em Maresfield Gardes 20, futuro Freud Museum. Ali redigiu sua última obra, Moisés e o monoteísmo. Nunca saberia do destino dado pelos nazistas às suas quatro irmãs, exterminadas em campos de concentração” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 278).


(Freud Museum, Londres)

Em 23 de setembro de 1939, às três horas da manhã, depois de dois dias em coma, Freud morreu tranquilamente, acompanhado de Max Schur e Anna Freud, e após várias batalhas contra um câncer no palato e mandíbulas, tumor claramente ligado à sua paixão pelo charuto, que o levou a enfrentar trinta e uma operações desde 1923.

A morte não se combate, se contorna com a transferência, belo conceito freudiano que vivifica o morto, a repetição, faz ponte entre épocas já que é atemporal. Freud e Ferenczi (entre 1900 e 1909): foram progressivamente introduzindo o termo “para designar um processo constitutivo do tratamento psicanalítico mediante o qual os desejos inconscientes do analisando, concernentes a objetos externos passam a se repetir, no âmbito da relação analítica, na pessoa do analista, colocado na posição desses diversos objetos” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p.766-767), ou seja, quando ocorre um recalcamento de um desejo do seu passado, o sujeito pode atualizá-lo no presente, re-presentá-lo, é estrutura e acontecimento, nos dizeres peuchetianos. Da transferência nasceram os psicanalistas de hoje, transferência com os escritos e relatos que atravessaram um século de história do e sobre o mestre vienense, mas além, uma transferência no sentido lacaniano do termo: um amor ao saber que se dirige à tradição, ao rigor que sustenta esta fecunda teoria e sua prática e às surpresas e irrupções provocadas pela causa, que insiste em não se inscrever, não-realizado, insiste em causar, não-manifestado, insiste, portanto, em existir inconsciente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

KAUFMAN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.