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Por isso, essa força estranha


Um teórico diante da estranheza do objeto, fundante olhar, sistematização nascente, transmissão em aulas capazes de capturar alunos e ouvintes. A língua, a fala, o signo, o sistema... E os seus furos. Dividido o ensino entre o dito e o manuscrito, anagramas, jogo permanente e incontrolável, o signo quebrado, desmontado e reconstituído. Muitos cadernos ainda por estudar, pulsação que coloca em movimento, os escritos recentemente publicados, enigma a convocar nossa voz.

“O signo lingüístico é uma entidade psíquica de duas faces estão intimamente unidos e um reclama o outro.”. (CLG, p. 80)

“Essa relação entre significante e significado, entre imagem acústica e conceito, não é, para Saussure, necessária, mas, sim arbitrária. Tal arbitrariedade do signo reside em seu caráter essencialmente convencional, que pode ser exemplificado pela existência de inúmeras línguas que designam os mesmos conceitos por intermédio de diferentes sons, como também pela pluralidade de significados que um mesmo significante apresenta” – (COUTINHO JORGE, 2005, p.75)

“(...) cabe hoje, ao comparar os manuscritos e as anotações dos alunos com a vulgata consagrada do Cours, apontar o maior alcance das meditações do genebrino – e de observar, também, que seu programa científico é, ao mesmo tempo, menos categórico que a sua tradução em 1916 e estabelecido sobre fundamentos mais minuciosamente explicitados.” (BOUQUET e ENGLER, 2004, p.10)

“Será que a lingüística encontra diante de si, como objeto primeiro e imediato, um objeto dado, um conjunto de coisas evidentes, como é o caso da física, da química, da botânica, da astronomia, etc.?

De maneira alguma e em momento algum: ela se situa no extremo oposto das ciências que podem partir do dado dos sentidos. Uma sucessão de sons vocais, por exemplo, mer (m + e + r) é, talvez, uma entidade que regressa ao domínio da acústica, ou da fisiologia; ela não é, de jeito nenhum, nesse estado, uma entidade lingüística. Uma língua existe se, à m + e + r, se vincula uma idéia.” (SAUSSURE, 2004, p. 23)

“A língua, ou o sistema semiológico, qualquer que seja, não é um barco no estaleiro, mas um barco lançado ao mar. Desde o instante em que ele tem contato com o mar, é inútil pensar que é possível prever seu curso sob o pretexto de que se conhece exatamente as estruturas de que ele se compõe, sua construção interior segundo um plano.” (SAUSSURE, op.cit., p. 249)

“Observar a língua e se perguntar em que momento preciso uma tal coisa ‘começou’ é tão inteligente quanto observar o riacho na montanha e acreditar que, subindo, se encontrará o lugar preciso em que ele tem a sua fonte. Coisas inumeráveis estabelecerão que, a cada momento, o RIACHO existe enquanto se diz que ele nasce e que, reciprocamente, ele nada faz além de nascer enquanto se diz (...)” (SAUSSURE, op.cit., p. 85)

O caráter instável das palavras causa “um horror doentio (...) um suplício inimaginável” (SAUSSURE, 1975, p.9) já que não existe “um só termo nesta ciência que seja fundado sobre uma idéia clara e que assim, entre o começo e o fim de uma frase, somos cinco ou seis vezes tentados a refazê-la” (SAUSSURE, 1975, p.9).

“a identidade de um símbolo não pode nunca ser fixada desde o momento em que ele é símbolo, isto é, derramado na massa social que lhe fixa a cada instante o valor (...) todo símbolo, uma vez posto em circulação (...) é neste instante mesmo absolutamente incapaz de dizer em que consistirá sua identidade no instante seguinte” (SAUSSURE, apud STAROBINSKI, 1971, p.13-14).

http://www.institut-saussure.org/

http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/05/15/fernando-saussure-breve-vida-e-obra/

REFERÊNCIAS

ARRIVÉ, M. Em busca de Ferdinand Saussure. São Paulo. Parábola, 2010.

COUTINHO JORGE, M. A. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan, vol.1 – As bases conceituais. Rio de Janeiro, Zahar Editor, 2005.

SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral, São Paulo, Cultrix, 1991.

SAUSSURE, F. Escritos de Lingüística Geral. Organizados e editados por Simon Bouquet e Rudolf Engler. São Paulo, Cultrix, 2004.

STAROBINSKI, J. As palavras sob as palavras – os anagramas de Ferdinand Saussure. São Paulo, Editora Perspectiva, 1974.

SILVEIRA, E. As marcas do movimento de Saussure na fundação da Lingüística. Campinas, Mercado das Letras, FAPESP, 2007.

HENRY, P. A ferramenta imperfeita – língua, sujeito e discurso. Tradução Maria Fausta Pereira de Castro. Campinas, Editora da UNICAMP, 1992.