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Onde cresce o perigo, cresce também o que salva


Um pensador a fazer a crítica do Partido dentro do partido, voz ácida de quem desautoriza certezas. Reflexão sobre ideologia, ideologias, teoria das ideologias. O imaginário atravessa, constituinte e pulsante. Professor de escolas e intelectuais, provocação permanente, tormenta e angústia, o desenlace de amor, isolamento, poucos encontros. O fim só.

Louis Althusser nasceu no dia 16 de outubro de 1918 na cidade de Birmandrais, na Argélia, na época colônia francesa. Após cursar o ensino fundamental em Argel, Althusser vai em 1930 para a França, onde vai viver na cidade de Marselha, completando ali os seus estudos secundários. De 1936 a 1939 ele frequenta o Lycée du Parc de Lyon, no qual se prepara para o concurso de ingresso na École Normale Superieur (ENS) de Paris. Nessa época, Althusser era católico e militante da Jeunesse Étudiante. Em 1939 ele ingressa na École Normale Superieur de Paris, porém seus planos são adiados devido a Segunda Grande Guerra, no qual ele é mobilizado a lutar e logo se vê prisioneiro dos alemães; permanecendo assim em um campo de concentração de 1940 a 1945. Após esse período, Althusser dá inicio aos seus estudos em filosofia na mesma Universidade na qual ele tinha se candidatado, na École Normale Superieur de Paris, onde ele viera a concluir seus estudos no ano de 1948. A guerra deixou marcas em Althusser, e este veio a padecer de sucessivas crises psíquicas, que o acompanhou por toda a sua carreira. No ano de 1948, ele assume a posição de professor encarregado de preparar os estudantes para os exames de agregation - na ENS. É também nesse mesmo ano que Althusser ingressa no Partido Comunista Francês. Na época em que Althusser se juntou ao Partido Comunista, Jean-Paul Sartre, o existencialista que lutou na Resistência, e seu sócio em Les Temps Moderne, o ex-fenomenologista Maurice Merleau-Ponty, estavam entre uma camada da intelectualidade que estava alinhando-se com a URSS.

O clima do pós-guerra deu inicio á um período de recuperação econômica, e neste mesmo momento o existencialismo veio a se ruir, sendo substituído pelo então estruturalismo; que tornou-se uma moda intelectual nos anos 1960 na França. O estruturalismo lingüístico de Roman Jakobson, a crítica estruturalista literária de Roland Barthes e o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss tiveram grande destaque na época. Louis Althusser e seu aluno Michel Foucault também foram considerados como representantes desta corrente. Os estruturalistas destacaram-se pela persistência de "estruturas profundas", estas que estão subjacentes a todas as culturas humanas, deixando pouco espaço para qualquer mudança histórica ou iniciativa humana. É neste período, no entanto, que surgem os trabalhos mais importantes de Althusser - Pour Marx (A favor de Marx) e Lire Le capital (Ler O capital) - que, contrapondo-se à leitura dominante de Marx, até então vigente, terão o efeito de uma verdadeira revolução teórica no campo marxista. Partindo de uma crítica de Marx do empirismo, Althusser rejeita o conteúdo positivista do conhecimento inteiramente empírico. Ele afirma que a essência não pode ser encontrada na aparência, mas deve ser descoberta através de "prática teórica" - "apresenta a história em [Marx] Capital como objeto de teoria, não como um objeto real, como um" resumo "(conceitual) objeto e não como um objeto real e concreto. "Assim, como em Kant, a história 'real' se encontra em um "além", por trás da "teoria da história", que é o único e verdadeiro objeto do conhecimento. Seus trabalhos mais influentes incluem Para Marx (1965) e Lenin e Filosofia (1969), incluindo seu artigo sobre "Ideologia e Aparelhos ideológicos de Estado." Faleceu no dia 22 de outubro de 1990, vítima de um ataque cardíaco.

http://www.biographicon.com/view/x93ie

A favor de Marx (1965),

Ler "O Capital" (1965)

Lênin e a filosofia (1968)

Elementos de autocrítica (1974),

Sobre a ideologia (1976),

Freud e Lacan (1976),

O futuro dura muito tempo (autobiografia) (1985)

http://www.edwardfox.f2s.com/althusser1.html

http://www.marxists.org/reference/archive/althusser/index.htm

http://borreco.blogspot.com/2009/08/favor-de-marx-louis-althusser.html

Influência de Althusser na Análise do Discurso

A Análise do Discurso (AD) de filiação francesa foi fundada por Michel Pêcheux e Jean Dubois, como uma disciplina criada a partir dos postulados de outros três domínios disciplinares: a Linguística, o Marxismo advindo das Ciências Sociais e a Psicanálise. Dubois era lexicólogo, portanto tinha embasamento voltado à Lingüística; já Pêcheux era, na verdade, filósofo, envolvido nos debates da época com marxismo, psicanálise e epistemologia. A partir daí, é possível entender porque a AD empresta conceitos de Louis Althusser, Jacques Lacan dentre outros, uma vez que são pensadores característicos, tanto dos referidos campos teóricos de interesse a Pêcheux, quanto da época na qual a disciplina foi fundada.

Entre os citados, possivelmente a maior contribuição veio justamente de Althusser, que foi professor de Michel Pêcheux e teve grande impacto na obra do filósofo, cujos postulados sobre ideologia perpassam pelo pensamento pós-marxista althusseriano para compor os alicerces sobre o papel da ideologia na linguagem. Para Althusser, não só as relações econômicas (como ensina Marx), como também as relações imagináriasregem a ideologia e afetam o sujeito; a ideologia não é então uma inversão da realidade, mas uma representaçãodela.

Em seu resgate sobre a trajetória acadêmica de Pêcheux, Maldidier (2003, p.18) é enfática: “Se fosse necessário, nesses anos de aprendizagem, designar um nome, um pólo, eu não hesitaria: Althusser é, para Michel Pêcheux, aquele que faz brotar a fagulha teórica, o que faz nascer os projetos de longo curso”. De acordo com Althusser, a ideologia só existe por e para o sujeito. Seu diferencial em relação a outros teóricos da época como Foucault e Derrida, segundo Henry (1997), é justamente esse interesse maior pela ideologia em relação à linguagem ou ao signo. Para ele, não há outro sujeito senão o da ideologia e não há como escapar dela, assim, todo sujeito só pode ser agente de uma prática social enquanto tal. Deste modo, Althusser rompe com a filosofia idealista e especifica o funcionamento da ideologia, suas práticas e discursos, na esteira do materialismo histórico.

Marx formulou o conceito de Aparelhos de Estado (AE), constituído pelo governo, administração, exército, prisões, etc., noção esta que é resgatada por Althusser, que passa a chamá-la de Aparelhos Repressivos do Estado (ARE). Ao seu lado, cria o conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), que é formado pela escola, igreja, família, etc. (ALTHUSSER, 1992, p. 67). Enquanto os AIE visam reproduzir a ideologia dominante por meio das práticas sociais, os ARE a preservam por meio da violência contra àqueles que se opõem ou desviam-se dela. Para Althusser, portanto, os Aparelhos de Estado são formados pelo conjunto dos ARE e dos AIE, conjunto esse que visa garantir a reprodução das condições de produção. Com isso, Althusser não somente recupera os conceitos de Marx como também trabalha sobre eles para desenvolver a teoria sobre os AIE.

Zandwais (2009) alega que um dos maiores achados da teoria da AD pecheutiana foi inserir a polissemia e a ruptura em seus postulados, algo que o filósofo estudou com muito mais ênfase que seu mestre, Althusser. Para Pêcheux, os aparelhos ideológicos de Estado não são meros instrumentos da classe dominante, podem servir para manter ou transformar as práticas.

Referências bibliográficas

ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1992.

HENRY, P. Os fundamentos teóricos da ‘Análise Automática do Discurso’ de Michel Pêcheux (1969). In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.) Por uma Análise Automática do Discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3. ed. UNICAMP, Campinas. 1997.

MALDIDIER, D. A inquietação do discurso: (re)ler Michel Pêcheux hoje. Campinas: Pontes, 2003.

ZANDWAIS, Ana. Perspectivas da análise do discurso fundada por Michel Pêcheux na França: uma retomada de percurso. Santa Maria: UFSM, Programa de Pós-Graduação em Letras, 2009.