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Acabei sendo o meu nome


JACQUES-MARIE ÉMILE LACAN (1901-1981)

Dito Jacques Lacan

Leituras de Freud para seus inícios, um ensino dado em seminários, alguns escritos: uma voz a articular campos de saber e dialogar com muitos. O inconsciente estruturado ao modo de uma linguagem. O cartel, o passe como órgãos de base da sua escola. Teorizações que avançam o significante, matemas, topologia. Os nomes sempre em questão. Inquietante busca até o fim, e o que continua a fazer eco em tantos psicanalistas e sujeitos em análise.

Parisiense nascido em 14 de abril de 1901, em uma família de fabricantes de vinagres Orléans (os Dessaux), Lacan foi o primeiro de quatro filhos de uma família da media burguesia católica conservadora, ambiente que “horrorizava o jovem Lacan” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p.446). Filho de Alfred Lacan, homem “fraco, esmagado pelo poder de seu próprio pai” (op.cit.) e de Émilie Baudry, intelectual e religiosa. Rompeu com o catolicismo ainda na adolescência, época em que “admirava a Ética de Baruch Spinoza (1632-1677)” (op.cit) e que se voltou para Frederick Nietzsche e Charles Maurras, abrindo-se para a vanguarda literária e fechando-se para as pretensões paternas, que desejava que o filho desse continuidade aos negócios da família.

Nos anos vinte, Lacan encontra os surrealistas, fazendo laço com escritores e poetas, frequentando a livraria Monnier, assistindo à leitura pública do Ulisses de James Joyce. Fez residência em psiquiatria no Hospital Saint-Anne, onde conheceu Clérambault, professor que o influenciou significativamente, em foto abaixo:

Com este mestre, realizou uma síntese da psiquiatria francesa: Clérambault tinha uma concepção da doença mental como hereditária, biológica, e a Lacan havia o interesse pelo suporte material do delírio e a psiquiatria dinâmica no Hospital Sainte-Anne: tese “Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade”em 1932. Também em 1932 deu início à uma análise didática com Rudolph Loewenstein, que duraria seis anos e meio. Ao final do ano de 32, “publicou sua tese sobre a história de uma mulher criminosa (Marguerite Anzieu), da qual fez um caso de paranóia de auto-punição (a caso Aimée)” (p.446), considerada uma obra-prima por René Crevel (1900-1935), Salvador Dalí (1904-1989) e Paul Nizan (1905-1940). No ano seguinte publicou um artigo na Revista Le Minotaure sobre o famoso caso das irmãs Papin (“crime cometido em Mans por duas domésticas contra suas patroas”, (op.cit., p.446)), drama verídico que inspirou Jean Genet a fazer uma peça, Les Bonnes, e Claude Chabrol, um filme, La Cérémonie.

Em 1934 Lacan casou-se com Marie-Louise Blondin (Malou), com quem teria três filhos, Caroline, Thibaut e Sibylle. Um casamento insatisfatório desde o começo.

A partir de 1936, Lacan iniciou-se na filosofia hegeliana, ao freqüentar os seminários de Alexandre Kojève, onde também aproximou-se de Koyré, Georges Bataille, Raymond Queneau, amplificando seus estudos em filosofia e sociologia. Em 1936, Lacan retoma o termo de Wallon, “prova do espelho” (onde a criança passa a se distinguir do espelho, significando a passagem do especular para o imaginário e deste para o simbólico) transformando em “estádio do espelho” e apresentou-se em um Congresso da IPA com este trabalho, mas Ernest Jones cortou-lhe a palavra com apenas dez minutos de exposição (op.cit).


(Estádio do espelho em esquema)

Em 1937, apaixonou-se por Sylvia Maklès-Bataille (1908-1993), ex-esposa de Georges Bataille. Em 1940 anunciou à sua então esposa, Malou, grávida de oito meses, que Sylvia, sua companheira, também estava grávida. Nasceram neste momento histórico, as filhas Sibylle e Judith. Esta foi registrada com o sobrenome Bataille e só pode receber o sobrenome Lacan em 1964, fato que perpassou pelas elaborações lacanianas em torno do conceito de Nome-do Pai (op.cit.).

Em 1941 Lacan instalou-se na Rue de Lille, n. 5, onde ficaria até sua morte. Na mesma rua, n.3, foi residir Sylvia com suas duas filhas. Em julho de 1953 Lacan e Sylvia casam-se na prefeitura de Tholonet. Ambas as famílias sofreram com os enlaces e desenlaces. O pós-guerra, que fortaleceu a emigração nos EUA suscitada pelo Nazismo, foi o período marcado por carência cultural, onde as Obras freudianas foram traduzidas com muitas “perdas”, equívocos que vem sendo retomados e reelaborados atualmente com uma nova tradução, do alemão diretamente para o português.

Lacan coloca suas teorias sob o signo do “Retorno a Freud” e recorrentemente em seus Seminários, reafirma a importância de se ler as Obras no alemão. Foi por volta de 1950 que Lacan começou sua proposta de fazer um retorno ao discurso fundador da psicanálise, ou seja, aos textos de Freud, com uma questão sobre a psicanálise sustentando toda a investigação: “sob que condição ela é possível?”. Ao mesmo tempo, como teórico inquieto que era, abriu-se a interlocução com a filosofia heideggeriana, buscando o estatuto da verdade, com a linguística saussuriana – de onde extraiu sua concepção de significante e do inconsciente estruturado como uma linguagem; e com Lévi-Strauss, para falar da noção de simbólico, que utilizou na construção da tópica RSI, “assim como uma releitura universalista da interdição do incesto e do Complexo de Édipo” (op.cit., p.448).


(Esquema L, completo)


(Nó borromeano com os três registros RSI e o objeto a na articulação do nó)

Lacan toma em Freud, no sistema percepção-consciência da 2ª tópica, o termo Wahrnehmungszeichen, que designa a sincronia sigte., “50 anos antes dos lingüistas” (LACAN, 1998, p.48) e diz que o significante: “é a primeira marca do sujeito” (op.cit., p.63) e ainda:

  • É um aspecto material (vestígio acústico,visual, sensível)
  • Ele inscreve algo que é uma ausência, substitui uma falta
  • No significante e por meio dele, alguma coisa de outra ordem fica inscrita (o que quer também dizer que algo não será registrado)
  • Ele remete sempre para outro significante- cadeia articulada
  • Existem leis que regem sua combinação (ordem fechada)
  • Ele sempre pode ser anulado, destituído de sua função
  • são significantes porque sempre podem ter significados distintos

É no discurso que se estabelece a relação do sujeito com o saber, para Lacan, “o discurso é o lugar no qual se evidencia que o ser humano está assujeitado à linguagem, submetido aos efeitos dos significante e incapaz de dizer toda sua verdade” (BATTAGLIA apud Clément, 1983, p.26). O funcionamento discursivo se dá, assim, da seguinte forma: uma parte é voltada para o consciente, algo se transmite, mas passível de equívoco, por causa da outra parte, que escapa a significação.


(Some participants of the first reading of Désir attrapé par la queue, Picasso’s theatrical farce. Standing, left to right: Jacques Lacan, Cécile Eluard, Pierre Reverdy, Louise Leiris (Les Deux Toutous), Zanie Aubier (La Tarte), Picasso, Valentine Hugo, Simone de Beauvoir (La Cousine). Sitting: Sartre (Le Bout rond), Albert Camus (Director), Michel Leiris (Le Gros Pied), Jean Aubier (Les Rideaux) and Kazbek, Picasso’s Afghan hound.
(Photograph by Brassaï, 16 June 1944)

Buscando se interrogar sobre a gênese do eu, Lacan se inicia na filosofia hegeliana (reflexão filosófica concernente à consciência de si) e propõe uma leitura da 2ª tópica freudiana (que tinha o sentido contrário ao da Ego Psycology, realizando uma árdua crítica à EP (esta fez do “eu” o “produto de uma diferenciação progressiva do isso, agindo como representante da realidade e encarregado de conter as pulsões” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p.194)), enquanto que Lacan sustentava a prioridade da psicanálise no “inconsciente e o isso, em detrimento do eu” (op.cit., p. 448), com a gênese do eu na identificação, ou seja, inconsciente, quebrando o ditado “querer é poder” tão em voga na América do Norte.